Amália cuidou de um passarinho durante alguns meses. Em alguma segunda feira do ano, acordou e sentiu um aperto no peito, o motivo por mais tolo que possa parecer era concreto e certo, ela estava prendendo uma vida, vida essa que aprendeu a se contentar com o conforte de uma gaiola, mesmo já tendo percorrido todo o horizonte.
O aperto foi aumentando, e quando percebeu já tinha virado um nó, e Amália sabia que um nó quando é bem dado só se desata quando cortado. A gaiolinha foi aberta, para alivio de Amália.
Poderia estar escrevendo sobre a grande nobreza de Amália, ou sobre como o pássaro ficou feliz em poder bater as assas pelos ares, mas isso é muito obvio diante do fato de o pássaro não ter saído correndo, ou melhor, voando da gaiola. Ele não queria ser solto, não desejou em nenhum único dia a liberdade, ele ficou lá parado olhando para a porta aberta, e não saia.
O nó no peito de Amália, não sumiu, mesmo depois de ter tirado o passarinho da gaiola, o nó só aumentou, Amália tinha tido sua primeira teoria concreta sobre a vida, e é sobre ela que vale apena escrever.
Ela concluiu, sem muito pensar, somos exatamente iguais aquele pássaro preso na gaiola, somos completamente e desesperadamente iguais. Vivemos tanto tempo trancados na mesma gaiola que temos medo de olhar para fora dela, vivemos tanto tempo com os pés fincados no chão que sentimos um pânico do tamanho do mundo quando voamos por dois segundos.
Amália, que não era de ferro e nem bela, chorou, chorou céus inteiros, tinha se acostumado com as suas antigas escolhas, tinha aceitado a sua gaiola, já velha. Amália que não era frouxa e nem feia, resolveu deixar de ser pássaro, resolveu parar de apenas olhar para a porta aberta, resolveu sair do cativeiro.
Querida da Amália, não sabia que não são as portas ou as grades que nos prendem, não fazia a mínima idéia que o que a prendia no mesmo lugar era a comodidade. Porém sair voando sem destino, nem sempre é a melhor escolha, na maioria das vezes é a pior.
Amália, vou apenas lhe dizer uma coisa, o mais difícil não é sair da gaiola e voar por ai, o mais difícil é saber que gaiola te prende, e o porquê desta você não conseguir se libertar. Querida, apenas pare, e escute tudo o que você nunca se permitiu escutar, as vezes é você que se deixa engaiolar.
Nunca é tarde para voar, repito todas as manhas, e para completar penso baixinho, sempre é arriscado voar sem rumo ou cautela.
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