sábado, 5 de fevereiro de 2011

Leve

Quando criança, costumava passar os dias na casa da minha prima. Por um longo tempo, construíamos barracas de lençol. Colocavamos duas cadeiras perto do sofá, roubavamos as cobertas da minha dinda, e lá erra nossa cabana. Ela como a maioria das cabanas de lençol, era muito baixa, não conseguíamos ficar sentadas, muito menos em pé dentro dela. Ficávamos deitadas, brincando que o lençol azul era o ceu, e a coberta felpuda uma grama bem verdinha. Dentro da nossa barraquinha não cabia nossa casa da Barbie, muito menos as bonecas que andavam. Lá de dentro não dava para ver TV, não dava para jogar vídeo game, mas mesmo assim ficávamos lá, dias e mais dias. Acho que a verdadeira diversão, ou conforto, não era o cobertor felpudo ou o ceu estrelado, o que nos mantia lá era a sensação de um mundo paralelo. Um mundinho só nosso, onde o que não era bom acabava sendo filtrado pelo lençol, que só deixava passar o que era puro, calmo, limpo.
Hoje quando deitei, fiz uma cabana, devido a minha idade não arrastei cadeira e nem coloquei lençol no sofá. Hoje fiz um saco de dormir com o meu cobertor, fiquei por um bom tempo lá dentro, tentando voltar para os meus 6 anos. Fiquei lá pensando que se eu realmente quisesse todos os meus problemas evaporariam e eu levantaria como uma borboleta que sai do casulo. Acordei com o meu cachorro latindo descontroladamente, levantei braba, lavei o rosto e já nem lembrava mais da cabana ou do saco de dormir. Quando levantei não tinha nada de leveza em mim, nada de borboleta.
Não adianta, por mais que eu, você, tente os problemas sempre vão existir. Acho que a única solução é encarar o mundo real e os seus problemas com os olhos de uma criança, não falo de ingenuidade, falo de pureza. Quando abrimos bem os nossos olhos percebemos que o maior vilão, aquele que destrói a nossa cabaninha mora dentro de nos, ou melhor, quem destrói as coisas mais puras, limpas, e claras no nosso mundinho somos nos mesmos. Não existe barraca, cabana ou caverna que nos salve de nos mesmos, e dessa nossa mania infantil de destruir tudo. Vamos olhar o mundo com olhos de criança, não como crianças. Porque a solução não é viver em um mudo paralelo, a solução é viver da melhor forma o mundo real, olhar as coisas com leveza. Falo tanto em leveza, porque a maioria das pessoas insistem em escolher o mais pesado.
E se no final do dia quando nos olharmos no espelho não virmos uma borboleta em nos, ainda nos restara a nossa cama quentinha, com cara de céu estrelado. Mas um dia de tanto tentar sem leve, vamos nos olhar no espelho e ter vontade de sair por ai voando, sem parar, um dia não teremos mais vontade de dormir para esquecer os probelmas. Um dia, seremos tão leves, tão crianças, que o lobo que mora em nós já vai ter corrido pra longe, e vamos conseguir viver o que o mudo tem de melhor. O mundo real não é mau, nem ruim. A realidade é bela, só basta olharmos com olhos de criança, e pararmos de fazer birra como criança. As nossas cabanas não voltam mais, os minutos que perdemos nos trancando em casulos também não voltam, muito menos os que ficamos nos lamentando.
A solução, é abrir todas as gavetas que tem em nós,. A solução, é encontrar os olhos de menina, menino, que deixamos esquecidos em algum canto. Criança chora e em um piscar de olhos já esta correndo atrás de uma borboleta que ela encontrou no jardim. Criança sabe mais do que nos, que o tempo corre, e corre muito, o tempo não volta. A minha cabaninha não volta, os caminhos do meu cabelo também não, nem o minuto que você perdeu se lamentando. Quando colocarmos os nossos olhos de criança vamos notar que as estrelas do mundo real são mais belas e que as cabaninhas já nem fazem tanta falta. Leve, seja leve!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Quero ser como você

Todos os dias antes mesmo de colocar o pé esquerdo no chão, tenho vontade de ser como você. Sabe aquela velha historia do provar do próprio veneno, pois bem, é essa minha vontade. Há algum tempo pingo gotinhas no cotidiano, você nem as nota, ou melhor, você nem as sente. Eu por outro lado, sinto tudo, sinto muito, e sinto dizer que sentir muito cansa.
Não estou tentando dizer que cansei de você, só estou dizendo que as gotinhas já não bastam mais. Só estou tentando dizer, que é provável que as gotinhas se tornem goles, depois porres.
Querido, provar o próprio sabor é algo doloroso, mas de eficácia profunda. Já diziam olho por olho, dente por dente. A maioria das pessoas só aprendem dessa forma, o que é totalmente desnecessário.
O que todos sabem é que veneno em gotas vira antídoto, em baldes, creio que não. Veneno em grande doze pode matar, ou libertar de um sono profundo!
Amanha quando colocar os pés no chão colocarei o conta gotas de lado, e o veneno será como o amor, em baldes.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Muito menos do que falar baixo.

Você diz que eu falo muito. Na realidade falo pouco, o muito que falo nada contém, e quando realmente quero falar, me calo. Mais irritante do que falar muito, é falar muito e nada dizer. Por isso peço desculpas pelo meu eterno silencio.

domingo, 17 de outubro de 2010

Lado A, Lado C!

É preferível ter uma porta fechada, a uma entre aberta. Entra ou sai. Linhas do meio não existem, só existe cheio ou vazio. Não existe meia verdade, meia verdade é uma mentira completa. Fala ou cala. É preferível ter o vazio da solidão, a um amor que não completa. Preenche ou esvazia.
No exato momento em que realmente abrimos uma porta, outras automaticamente se fecham. Lacrar portas é um processo doloroso, em cada porta fechada deixamos algo, que gostando ou não, sendo bom ou mau, fez parte de nós. Porém deixar portas entre abertas, apenas para dar uma espiadela quando a saudade bater, é covardia. Abre uma fecha outra, não adianta teimar, ou em algum momento todas vão se fechar, e casa sem porta é inabitável.
Vai ou fica, se ficar que fique por inteiro. Fique por completo, fique sabendo em que lado da linha esta, não existe meio termo. Fique até virar pó, até a flor murchar, o vestido puir, mas só fique se tiver certeza do que realmente quer. Certo ou incerto. Fica ou vai. Fecha ou abre a porta. Só não tente permanecer na linha do meio, o que dizem sobre ela não é verdade.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Amor, paixão, dor.

Paixão é vida, paixão cega, paixão não dói, apenas queima. Apaixonado não repara no nariz torto, na escrita errada, tão pouco duvida de alguma coisa dita. Para quem é apaixonado defeito é apenas uma palavra que consta no dicionário. Paixão não dói, ela faz você flutuar léguas e léguas, consegue te levar tão alto, que quando você se da conta os arranhas céus são medíocres comparados a altura que você consegue atingir com um simples olhar. Paixão não dói, apenas queima, e de tanto queimar, de tanta boniteza, acaba. Acaba não por falta de desejo, ou carinho, acaba por falta de visão. Paixão cega, mas diferente da cegueira dos olhos, a cegueira do coração uma hora ou outra, mais cedo ou mais tarde, acaba se transformando em luz. E depois de meses, anos, décadas, quando o apaixonado vê a luz, e com ela todos os defeitos do outro, não sente dor, apenas o fogo que foi queimando tudo, lentamente, até a paixão virar cinzas.
Amor é morte, morte lenta, morte boa. Quem ama sofre, sofre tanto que sente vontade de sair correndo, sem rumo. No amor não existe meio termo, você ama ou não ama, quando alguém ama é de todo corpo, todo coração. Quando alguém realmente ama, não aceita o imperfeito. Quem ama tem a doce mania de arrumar tudo no outro, a dobra da camiseta, a palavra escrita errada, a imaturidade, o mau humor. O amor é eterno, quer, deseja o eterno, e você sabe quando vai ser pra sempre, e sabendo que vai ser assim pra toda vida, você gosta de arrumar, tirar o pó do lado mais escuro do outro, limpar a sujeira escondida nos lugares mais inesperados. No amor, se morre um pouco por dia, segundo, minuto, toda vez que corrigimos alguma coisa no outro estamos nos mudando também, mudando a nossa mania irritante de falar de mais, de não escutar, não olhar para os lados. Quem ama perde uma parte de si por dia, vai deixando uma trilha do que foi, quem ama muda, não só o outro, mas a si mesmo.
Paixão é cegueira, amor é luz, paixão é vida, amor é morte. Não existe nenhuma maneira das duas andarem juntas, ou se existe nunca ouvi falar. Mas se for pra escolher, se tiver como escolher, escolha o amor, só ele é eterno. Só o amor muda, só ele fala, escuta. Só quem ama percebe os defeitos, o nariz torto, as manias irritantes, só quem ama consegue superar eles, apenas o amor aceita o lado bom e ruim. Mas o amor é tão bom, e nobre, que transforma o escuro em claro, só pelo fato de saber que vai ser pra sempre. Morrer de amor não dói, morrer de amor é viver o eterno perfeito.

sábado, 28 de agosto de 2010

Perdida, Amália.

Amália cuidou de um passarinho durante alguns meses. Em alguma segunda feira do ano, acordou e sentiu um aperto no peito, o motivo por mais tolo que possa parecer era concreto e certo, ela estava prendendo uma vida, vida essa que aprendeu a se contentar com o conforte de uma gaiola, mesmo já tendo percorrido todo o horizonte.
O aperto foi aumentando, e quando percebeu já tinha virado um nó, e Amália sabia que um nó quando é bem dado só se desata quando cortado. A gaiolinha foi aberta, para alivio de Amália.
Poderia estar escrevendo sobre a grande nobreza de Amália, ou sobre como o pássaro ficou feliz em poder bater as assas pelos ares, mas isso é muito obvio diante do fato de o pássaro não ter saído correndo, ou melhor, voando da gaiola. Ele não queria ser solto, não desejou em nenhum único dia a liberdade, ele ficou lá parado olhando para a porta aberta, e não saia.
O nó no peito de Amália, não sumiu, mesmo depois de ter tirado o passarinho da gaiola, o nó só aumentou, Amália tinha tido sua primeira teoria concreta sobre a vida, e é sobre ela que vale apena escrever.
Ela concluiu, sem muito pensar, somos exatamente iguais aquele pássaro preso na gaiola, somos completamente e desesperadamente iguais. Vivemos tanto tempo trancados na mesma gaiola que temos medo de olhar para fora dela, vivemos tanto tempo com os pés fincados no chão que sentimos um pânico do tamanho do mundo quando voamos por dois segundos.
Amália, que não era de ferro e nem bela, chorou, chorou céus inteiros, tinha se acostumado com as suas antigas escolhas, tinha aceitado a sua gaiola, já velha. Amália que não era frouxa e nem feia, resolveu deixar de ser pássaro, resolveu parar de apenas olhar para a porta aberta, resolveu sair do cativeiro.
Querida da Amália, não sabia que não são as portas ou as grades que nos prendem, não fazia a mínima idéia que o que a prendia no mesmo lugar era a comodidade. Porém sair voando sem destino, nem sempre é a melhor escolha, na maioria das vezes é a pior.
Amália, vou apenas lhe dizer uma coisa, o mais difícil não é sair da gaiola e voar por ai, o mais difícil é saber que gaiola te prende, e o porquê desta você não conseguir se libertar. Querida, apenas pare, e escute tudo o que você nunca se permitiu escutar, as vezes é você que se deixa engaiolar.
Nunca é tarde para voar, repito todas as manhas, e para completar penso baixinho, sempre é arriscado voar sem rumo ou cautela.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Só presente, e futuro.

É madrugada, poderia dizer que já passa das três, e a única coisa que me faz pensar é o passado.
Ele não deveria ter esse nome, afinal o passado é sempre tão presente que deveria ter outro nome, algum nome que não deixe brechas para ditados populares, o que passou não passou.
No fundo todos achamos que poderíamos mudar alguma coisa, não podemos, e essa é a real alegria da vida, o que esta feito, esta feito, consumado. Porem, a grande tristeza, é que temos a mania de nos lamentar por alguma escolha que fizemos antigamente.
A alegria é que todas as nossas atitudes nos constroem, a vida é como um castelo de areia que construímos na beira da praia, cada ação é o grão de areia, o problema é que algumas pessoas não se lembram de fixá-lo em terra firme.
O que foi feito, esta feito, e todas as suas atitudes, pequenas ou não, boas ou más, te fazem ser o que você é agora, uma pessoa grande em espírito ou pequena. Não adianta querer tirar o primeiro balde de atitudes que você colocou no seu castelo, ela já esta em um lugar inalcançável.
Não existe passado, só presente, o que você foi não pode ser mudado, porem toda a vez que a onda bate no castelo, traz com ela a oportunidade de construirmos um castelo melhor, mais limpo, organizado. Contanto, os restos do castelo antigo permanecerão no mesmo lugar, para sempre, e com base nele que o novo se forma. Não existe passado, mas existe o futuro.